Artigo

Bola de cristal trincada


stamos vivenciando nos dias atuais um evento que é extremamente didático e torna-se muito oportuno fazer algumas considerações que podem auxiliar os pequenos e médios empresários a entender o risco de suas decisões.

 

Neste exato momento há uma grande incerteza sobre os rumos que tomarão os empreendimentos do empresário Eike Batista. Este empresário conseguiu colocar a serviço de suas empresas capitais de várias origens e todos de grande monta. Sob a holding EBX, conseguiu recursos para empreendimentos nas áreas de petróleo, geração de energia, construção naval, portos, mineração, sem falar naqueles que estavam engatilhados e que ficaram parados, como: mineração de ouro, carvão e esportes, dentre outros.

 

A pergunta que deve ser feita é: como as coisas chegaram neste ponto, ou seja, por que o grupo está tentando vender ativos para salvar o que resta? Apenas a empresa OGX (exploração de petróleo), que já teve suas ações cotadas em torno de R$ 22,50 desde 2010, fechou em 0,56 no primeiro dia de Julho deste ano, com uma queda brutal de 97,5% sobre a cotação máxima. Da mesma forma, a OSX (porto Açu) que já teve sua cotação em torno de R$ 30,00 desde 2010, fechou no mesmo dia em R$ 1,33 com uma queda de 95,6%.

 

O que pensaram exatamente os investidores que colocaram dinheiro nos empreendimentos do Eike? Certamente pensaram que ele estava certo em suas previsões, que tinha resposta para tudo que ia acontecer no futuro, ou seja, viam previsões sobre produção esperada nos campos de petróleo, nos preços, nas demandas de infraestrutura, na tecnologia existente para alcançar tudo isso, e, principalmente, como o mercado externo iria se comportar em relação àscommodities. Aí então, vem sempre à mente o Vicente Feola, que foi treinador da seleção do Brasil na copa de 1958, na Suécia, que falava para a equipe como iriam jogar para ganhar da Rússia, e estava tudo certo. Quando o Garrincha perguntou se isso já tinha sido "Combinado com os Russos", ficou claro que todas essas estratégias sempre podem falhar, e que não há uma grande bola de cristal.

 

Ao olharmos o que está acontecendo no ramo de varejo de confecções, onde já acontece uma avalanche de liquidações de inverno dentro dessa mesma estação com cortes de preços de até 70%, certamente há fatos que estão escapando a percepção de quem produz, ou de quem revende, porque, uma antecipação dessa ordem vai implicar em prejuízo, inadimplência, ou na melhor das hipóteses, numa redução drástica das margens de lucro originalmente previstas.

 

Quando um megaempresário erra na sua estratégia ou previsões, quem assume o risco é o conjunto de organizações que colocou o dinheiro no empreendimento, mas, no caso de pequenos e médios empresários, quem assume o risco é ele mesmo, com seu patrimônio servindo de aval para eventuais empréstimos, ou tendo que se desfazer de suas propriedades para bancar prejuízos, ou inadimplências de seus clientes.

 

A grande lição que fica, é que, na maioria das vezes, empreender é a parte mais fácil do negócio, sendo que sua continuidade, ou chegar às metas estabelecidas vai depender muito da competência do empresário de analisar as nuances do mercado bem como as perspectivas de curtos e médios prazos. Os competentes continuarão seguindo sua trajetória, e os incompetentes serão expurgados sem clemência.


Moacyr França Filho - moacyr@nivel10consultoria.com.br

Consultor e sócio da Nível 10 Consultoria Empresarial.
Formado em Engenharia Elétrica na Escola de Engenharia Mauá.
Pós em Engenharia de Segurança do Trabalho, USP. 
Trabalhou na área petroquímica durante 25 anos.



Publicado em 10/07/2013 11:00:51