Artigo

O veleiro e a craca


Quem já teve um veleiro ou embarcação sabe muito bem o que é craca no casco. Para quem não é familiar ao assunto, cracas são incrustações vivas que aderem às partes sólidas que ficam imersas na água salgada. Assim sendo, as embarcações, ao longo do tempo, vão tendo a parte submersa dos seus cascos lentamente tomadas por tais incrustações. À medida que a proliferação começa a aumentar, isso compromete de tal forma o deslocamento da embarcação que se torna quase impossível utilizá-la adequadamente.

 

Nos veleiros que usam propulsão a vela, isso é vital, uma vez que são equipamentos que usam a força do vento e se deslocam a baixa velocidade, sendo que as cracas produzem uma ação de ancoragem, reduzindo drasticamente a velocidade de deslocamento.

 

Bem antes do ponto de prejudicar o deslocamento a níveis considerados inaceitáveis, retiram-se as embarcações da água e através de uma raspagem do casco, removem-se essas incrustações, aplicam-se tintas anti-incrustantes e se prepara o casco para mais uma temporada.

 

Identificar as cracas de uma empresa é função obrigatória dos gestores. Vejamos alguns exemplos clássicos:

 

  • Pessoal sem treinamento e com baixa produtividade.
  • Embalagens de produtos inadequadas.
  • Produtos rejeitados no mercado e ainda em fabricação.
  • Sistemas de informática ultrapassados, que não atendem mais as necessidades do momento.
  • Planejamento estratégico incompatível com a realidade da empresa (mal elaborado ou irreal).

 

O ponto que queremos destacar, é que em todos os empreendimentos, nada é estático. Num mundo de mudanças altamente aceleradas, é vital acompanhar o desenrolar dos acontecimentos no universo em que a empresa gravita, ou seja, o mercado em que está inserida, os processos fabris que ela adotou, o tipo de qualificação de pessoal que é necessário, enfim, a medida que o tempo passa, há sempre uma tendência de que tudo que está implantado na empresa fique desatualizado ou obsoleto.

 

Caso a empresa opte por praticar uma política similar ao avestruz (colocar a cabeça num buraco), o corpo do lado de fora vai sofrer. As cracas vão se avolumar num nível em que a empresa literalmente irá parar, e é um processo que poderá levar até a sua falência.

 

Não há periodicidade ideal para uma repensada geral. O importante é que a empresa tenha sempre em mente que precisa avaliar regularmente seus processos produtivos, seu quadro de pessoal, sua estrutura organizacional, o posicionamento de seus produtos em relação à concorrência, e principalmente, sua saúde financeira. 

As empresas de sucesso e as que têm longevidade são as que desenvolveram práticas para essa “raspagem no casco” e assim, conseguem continuar na ativa, competindo e crescendo.
 

Moacyr França Filho - moacyr@nivel10consultoria.com.br

Consultor e sócio da Nível 10 Consultoria Empresarial.
Formado em Engenharia Elétrica na Escola de Engenharia Mauá.
Pós em Engenharia de Segurança do Trabalho, USP.
Trabalhou como engenheiro na área petroquímica durante 25 anos.



Publicado em 26/02/2013 11:27:43